Ao encerrar o Mês do Orgulho Autista, a ANAFE reúne reflexões do Advogado da União Marcos Weiss Bliacheris e da psicóloga e pesquisadora Giovanna Nicolau sobre neurodiversidade, acessibilidade, pertencimento e a importância de ouvir as próprias pessoas autistas na construção de ambientes mais acolhedores.
Junho é oficialmente reconhecido no Brasil como um período dedicado à conscientização e à celebração da neurodiversidade, impulsionado pelo Dia Nacional do Orgulho Autista, celebrado anualmente em 18 de junho.
Mais do que uma data simbólica, o período representa uma oportunidade para ampliar o diálogo, desconstruir estigmas e reforçar o compromisso coletivo com a construção de uma sociedade mais acessível, diversa e acolhedora.
Para marcar a ocasião, a ANAFE reuniu duas entrevistas especiais que trazem perspectivas complementares sobre o tema. De um lado, o Advogado da União, associado da ANAFE e membro da Comissão de Diversidade da entidade, Marcos Weiss Bliacheris, cuja vivência familiar se transformou em uma atuação profissional e acadêmica voltada à promoção da inclusão. De outro, a psicóloga, pesquisadora e doutoranda Giovanna Nicolau, que compartilha sua própria experiência como pessoa autista e os desafios enfrentados ao longo da trajetória acadêmica.
As reflexões apresentadas pelos entrevistados convergem para uma mesma mensagem: a inclusão vai muito além da eliminação de barreiras físicas ou do cumprimento de normas legais. Trata-se de reconhecer as diferentes formas de existir, criar espaços de pertencimento e garantir que todas as pessoas possam desenvolver plenamente seus potenciais.
MARCOS WEISS BLIACHERIS
Advogado da União, associado da ANAFE, membro da Comissão de Diversidade da ANAFE, professor, pesquisador, autor do livro “Diferente como a gente” e representante da AGU no Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (CONADE).
Como a sua trajetória pessoal influenciou a sua atuação profissional?
O autismo entrou na minha vida primeiro como uma experiência familiar e, ao longo dos anos, passou a influenciar profundamente a minha trajetória acadêmica, profissional e a minha atuação em políticas públicas.
Aprendi que grande parte das dificuldades enfrentadas pelas pessoas autistas não decorre do autismo em si, mas das barreiras impostas pela falta de acessibilidade e acolhimento. Essa percepção me levou a aprofundar os estudos sobre deficiência, neurodiversidade e inclusão.
Hoje, como Advogado da União, atuo na Consultoria Jurídica do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (CONJUR/MDHC), trabalhando com políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência, além de representar a AGU no CONADE.
Também compartilho esse aprendizado em palestras, cursos e atividades voltadas à promoção da diversidade e da inclusão. Em todas essas frentes, carrego comigo o olhar de pai de uma pessoa autista e o de uma pessoa neurodivergente.
Como a sua participação na Comissão de Diversidade da ANAFE e no CONADE contribui para ampliar a inclusão?
Tenho buscado ampliar o debate sobre neurodiversidade e inclusão, especialmente dentro das instituições públicas.
Ainda temos muito espaço para avançar na construção de ambientes mais acolhedores. Falar sobre autismo e outras deficiências ajuda a reduzir estigmas e oferece mais segurança para que as pessoas possam ser quem são.
A inclusão precisa ser compreendida como um valor permanente, e não apenas como uma obrigação legal. Além disso, nenhuma política pública ou iniciativa será, de fato, inclusiva se não considerar as experiências e as perspectivas das próprias pessoas autistas.
Que mensagem o senhor gostaria de deixar para as pessoas autistas, suas famílias e para a sociedade?
Acredito que devemos colocar o foco nas possibilidades e não na deficiência. É importante também ouvir os autistas e respeitar as suas experiências e de suas famílias.
E um lembrete: se alguém te contar que é autista ou que seu filho é, ouça! Lembre que essa pessoa não está pedindo sua opinião, mas compartilhando algo pessoal que é muito importante para ela.
GIOVANNA NICOLAU
Psicóloga clínica, pesquisadora, doutoranda e mestra em Psicologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua nas áreas de neurodiversidade, deficiências não aparentes e decolonização dos estudos das deficiências.
Como foi o processo de descoberta do diagnóstico e de que forma ele impactou a sua trajetória?
Desde a infância, carreguei uma sensação constante de não pertencimento. As pessoas frequentemente diziam que eu era diferente, seja pela forma de me comunicar, pelos meus interesses ou pela maneira como percebia o mundo.
Receber o diagnóstico de autismo, em 2018, foi um processo de libertação. Passei a compreender que a minha singularidade não representava uma inadequação, mas uma forma legítima e única de existir.
Esse processo também provocou um profundo exercício de autoconhecimento, que impactou positivamente a minha atuação profissional, permitindo que eu ajudasse outras pessoas a reconhecerem e compreenderem suas próprias neurodivergências.
Quais foram os principais desafios enfrentados na vida acadêmica?
Grande parte dos desafios esteve relacionada ao capacitismo e à ausência de acessibilidade.
Ao longo da graduação, do mestrado e do doutorado, precisei reivindicar direitos básicos previstos em lei e enfrentar situações de exclusão que, muitas vezes, dificultaram a permanência nos espaços acadêmicos.
Isso me levou a um questionamento importante: será que sou autodidata por escolha ou porque fui excluída dos processos de aprendizagem? Ainda hoje, muitas pessoas autistas enfrentam barreiras semelhantes e precisam lutar para ocupar espaços que também lhes pertencem.
A inclusão não pode ser uma responsabilidade individual. Ela precisa ser um compromisso coletivo.
Que mensagem a senhora gostaria de deixar para outras pessoas autistas?
Gostaria de deixar a mensagem que eu mesma precisava ouvir quando comecei a descobrir o meu autismo: não caminhem sozinhas.
Construam redes de apoio, fortaleçam vínculos com pessoas que ofereçam acolhimento e busquem espaços seguros para existir e compartilhar suas experiências.
Não existe uma experiência autista isolada. Precisamos construir comunidade, ocupar espaços e lembrar que pertencemos a eles.
Quando estamos em coletivo, nossa potência cresce e alcança novos lugares. É assim que transformamos a nossa experiência individual em uma força capaz de mudar a sociedade.
Ao encerrarmos o Mês do Orgulho Autista, permanece o convite para substituir estereótipos pela escuta, barreiras pelo acolhimento e exclusão pela convivência. Reconhecer e valorizar a neurodiversidade é um compromisso que vai além do calendário e um passo essencial para a construção de uma sociedade mais justa, acessível e respeitosa com todas as formas de existir.

